Você é interessante, as pessoas que não são interessadas

A conversa de um aplicativo de “pegação” se estendeu para uma conversa mais privada no whatsapp e tudo que precisávamos para ter certeza sobre estarmos fazendo a coisa certa era nos conhecermos pessoalmente.

O encontro foi razoável, mas as perguntas não fluíram muito bem, nem sobre minha banda favorita ou sobre qual escritor me agrada mais. Ela nem perguntou sobre a minha profissão ou de qual filme eu prefiro assistir aos domingos.

Voltei para casa me perguntando qual seria o meu nível de interesse para as pessoas: será que meu estilo musical, meu gênero literário ou meu paladar não são coisas interessantes? Ou será que a minha sintonia não estava em sintonia com o resto do mundo?

Relevei qualquer hipótese e apelei para outro encontro. Dessa vez, as perguntas saíram da minha boca, a curiosidade estava em mim e tudo que ganhei em troca foi a pergunta que menos me agradou (“com ou sem catupiry?”).

Comecei a rever alguns gostos e pesquisar pessoas que se interessavam pelas mesmas coisas que eu na tentativa de não me encaixar na parcela da sociedade que não é nem um pouco interessante.  Parei de buscar pelas pessoas e me concentrei nas que estavam perto de mim, afinal, elas sim tinham algum motivo para gostarem de mim. Fiz uma avaliação mental de tudo que eu era e outra avaliação externa questionando meus amigos sobre o que em mim os atraía.

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Entre turbilhões de pensamentos e conflitos sobre ser ou não ser um alguém que desperte a curiosidade das pessoas, concluí que eu tenho muito a oferecer para as pessoas. Besta de quem não perguntar como foi meu dia, porque eu sei que eu faço de cada dia uma aventurazinha diferente. Tenho pena é de quem que não pergunta sobre meu gosto literário quando eu tenho ideias tão lindas. As pessoas perdem em não conhecer meu gosto musical, porque ele é diferente e diz muito sobre meus sentimentos.

Mas a solução não tinha chego ao fim. Revistei os arquivos que andavam perdidos na minha memória para entender o porquê eu não conseguia encontrar alguém que mostrasse interesse. Estava na cara.

Minhas referências sobre interesses pessoais se resumiam a uma pessoa que nem se interessava mais por mim. É irônico, né? Alguém que assume a responsabilidade de perguntar como foi seu dia, de cozinhar porque sabe que você adora massas ou de ir até a padaria e fazer uma surpresa com coca-cola : tudo porque essa pessoa sabe de você.

Cômico me deparar com a referência de uma pessoa que odiava meu gosto musical, mas acertava nas estampas das camisetas. Estranho me deparar com alguém que sabia mais de mim do que eu mesma e, hoje, nem se importa em me questionar se o emprego novo está me fazendo feliz ou se o término da faculdade me trouxe algo de bom.

Depois que você bate de cara com essa realidade, tudo que você pensava estava errado. Suas referências sobre quem se encanta por você mudam. Afinal, você é interessante, as pessoas que não são interessadas.

Jamile Ferraz

Jamile Ferraz Jornalista, mas gosta mesmo é de romance barato. Virginiana com vida profissional, mas nunca conseguiu tomar um rumo na vida pessoal. Acredita em destino, mas nem tanto. Apaixonada por livros, cinema e a música é como combustível. Um dia vocês vão ouvir falar de mim.
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