Mesmo que você não saiba, a Fresno já falou por você

Eu estava sentada na sala de aula com o olhar perdido para o menino que sentava na minha frente, a classe estava em caos, o professor já tinha desistido da matéria, mas na minha cabeça só passava a decepção de saber que dois dias atrás eu estava no estado mais lastimável que já me encontrei.

Uma amiga reconheceu a desesperança no olhar daquela adolescente de 16 anos que tinha passado pela primeira decepção amorosa da vida e disse: “olha, escuta essa música, eu sei que não vai melhorar, na verdade, vai piorar, mas um dia você vai ver sentido nisso.”

A música tinha o nome mais estranho que eu já tinha visto, Stonehenge. Para quem não sabe o significado dessa palavra, Stonehenge é um alinhamento megalítico da Idade do Bronze, localizado no sul da Inglaterra, mas a ligação do nome da música com o sentido dela até hoje eu não sei.

O fato é que aquela letra me tocou, foi o meu primeiro contato com a banda, e a partir daí o circulo de sentido começou a ter seus efeitos.

Aquele dia eu saí mais cedo da escola e marquei de cabeça o nome da banda, que até hoje é apenas o nome de um rio, de uma cidade e de uma árvore.

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Ouvi o que a internet me proporcionava e todas as letras dominaram o meu consciente. Eram versos regidos por palavras que expressavam exatamente o que eu queria dizer para o mundo e eu achava que nada no mundo poderia falar por mim. A Fresno conseguiu.

A banda tem hoje 15 anos de estrada, e foi rotulada por muito tempo como emo ou piegas demais. As letras que antes transbordavam sentimentalismo eram o que o meu coração, e o de muitas outras pessoas, sentia. Foi assim que o grupo ganhou espaço na mídia e milhões de pessoas cantavam com força na garganta as palavras que as sufocavam.

Pois bem, a Fresno seguiu seu caminho no ramo indie. Sem nenhuma gravadora, fez 2 EP e 1 CD independente e pautou as novas músicas com revolta e inspiração, traçando letras mais adultas e conceituais. Em suma, os caras priorizaram sua origem e lutaram para continuar sua jornada.

A carreira dos caras começou a fazer parte do meu dia a dia, músicas como: Desde Quando Você Se Foi, Redenção, Duas Lágrimas, Cada Poça Dessa Rua tem Um Pouco de Minhas Lágrimas e Milonga foram fundamentais para entender e aceitar mais as perdas da vida.

Estou quase fazendo 22 anos e tive a oportunidade de ir a 3 shows deles: o primeiro em 2012 e o último ainda este ano. Cada vez que escuto eles ao vivo, o coração pulsa e as lembranças de cada música se transportam para os meus olhos. O fato é que a Fresno decodificou os monstros e transformou isso em arte, passou a compartilhar isso e reorganizou a ideia de uma penca de gente que sofreu por amor.

As músicas atuais estão mais centradas em temas alarmantes para a sociedade, Manifesto é a obra mais centrada que a Fresno expôs ao mundo e não fala de amor, fala de justiça e mesmo assim é tocante e emocionante.

Não me lembro quantas vezes a música Diga Parte 2 me fez ter a entonação mais grave da minha voz para cantar a parte mais revoltante que eu conheço em uma música. É essa revolta, esse peso que tiro das costas que faz eu me sentir leve, capaz e motivada.

Se um dia eu pensei em desistir da vida e das pessoas, a música Sobreviver e Acreditar me pôs em pé, me empurrou para frente e destacou que eu precisava ser melhor que isso. E ainda que eu me perca no turbulento oceano de sentimentos, sei que aquela primeira música fez todo o sentido e vai continuar fazendo por anos.

Vão tentar derrubar, que é pra me ver crescer

E às vezes me matar, que é pra eu renascer

Como uma supernova que atravessa o ar

Eu sou a maré viva… Se entrar, vai se afogar.

Se esse verso não te fez sentido agora, pode apostar, ele ainda vai fazer.

Jamile Ferraz

Jamile Ferraz Jornalista, mas gosta mesmo é de romance barato. Virginiana com vida profissional, mas nunca conseguiu tomar um rumo na vida pessoal. Acredita em destino, mas nem tanto. Apaixonada por livros, cinema e a música é como combustível. Um dia vocês vão ouvir falar de mim.
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2 comentários

  1. Daniel · junho 14, 2016

    Tudo que penso refletido. É estranho. A final temos a tendencia de pensarmos que somos sós. As musicas traduzem muitos das coisas que sinto e não ouso me permitir transparecer.
    Adoro tbm “eu sou a maré viva”. É para mim a música mais intensa deles. Toda às vezes ecoa essa música com a frequência perfeita para tremer meus muros(Soory, meio poético e físico essa frase.)

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    • Jamile Ferraz · junho 21, 2016

      E aí Daniel, tudo bom? Que bom que tu leu esse texto! Reflete muito do que a banda é para mim e todo o crescimento dos caras durantes esses 15 anos de estrada. É sempre bom saber que essa maré tem mais gente viva do que parece. Não se preocupe com texto poético, a gente do UmEuSemVoce adora 😀 Abraços

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