Um Eu Em Carta #3

Oi Mile, tudo bem? Está assustada com uma carta que veio do futuro, ou melhor, do SEU futuro? Não fique, aqui deixo alguns conselhos para que você sobreviva e seja feliz.

Você ainda não tem noção nenhuma do quanto você vai ser importante e vai conhecer pessoas incríveis, mas confie em mim, eu sou você com 22 anos.

As coisas em casa não estão muito bem, né? É importante que você tenha paciência porque a mãe vai passar por um momento de grande evolução, e você também. Então tenha calma e continue sendo a companheira dela. Daqui uns 10 anos vocês serão melhores amigas e você vai poder contar tudo que sufoca seu coraçãozinho.

Peço que você se prepare porque é com 13 anos que você vai conhecer a pior dor do mundo e vai entender que os anjos ficam no céu. E se você não compreender essa mensagem agora, entenderá aos 17 anos.

Aproveite essa idade para estar perto dos seus amigos da escola, você terá momentos lindos perto deles e eu te garanto, depois de 10 anos alguns vão te convidar para sair e vai ser a mesma coisa.
Carta Jamile

Essa carta deveria ser enviada quando você completasse 16, é nessa idade que sua evolução começa a expandir. E eu estou aqui para tentar te ajudar com tudo que irá acontecer a partir de 2009.

O sonho de ser uma jogadora de futebol não vai acontecer e ler isso agora vai doer, porém não se esqueça que sua missão no planeta é bem maior.

Você vai conseguir um emprego no zoológico da cidade, parece pouca coisa, né? Exceto por um pequeno detalhe: lá você vai encontrar a garota que vai te tirar do fundo do poço. Vocês vão viver uma história louca e, hoje, ela vai ser seu porto seguro. Nunca, nem por um segundo, sonhe em se afastar dela, essa garota vai te ajudar a construir a sua história. Quando encontrá-la de macacão circulando pelo Zoo, seja amiga dela, ela é a pessoa mais doce do mundo e você vai precisar de toda essa doçura algum dia.

É também com 16 anos que você vai se aceitar gay, então fique tranquila porque esse seu pensamento de que você é diferente de todo-o-resto-do-mundo é mentira. Com 16 anos você vai encontrar muitas iguais a você e vai se identificar com pessoas que vão te aceitar do jeitinho que você é. Portando nunca use saia e nem vestido, você não precisa disso e nunca precisará.  – Um segredinho entre nós: Na sua formatura da faculdade, SIM, FACULDADE! Você estará espetacular em um blaser –

Bom, você vai se apaixonar de verdade e vai ser a coisa mais gostosa que você sentiu na vida. Você vai sorrir a toa, vai passar horas no telefone, vai fazer loucuras, vai sentir frio na barriga, você vai amar como nunca amou em sua vida e essa é a única certeza que eu ainda tenho. Mas cuidado, você só tem 16 anos e o amor bateu muito forte dentro de você, aproveite e desfrute desse sentimento porque ele vai durar pouco, e quando acabar, mile, ele vai doer. Vai doer muito, você vai passar uns meses sem querer comer ou ver as pessoas e quando você for se abrir para sua mãe ela não vai entender. E então vai doer o dobro (mas perdoe, ela está tão perdida quanto você, e não esqueça: aos 22 tudo ficará bem). Nesse momento você vai precisar daquela menina que trabalhou com você no seu primeiro emprego e ela vai te salvar. Portanto, deixe ela ser sua salvação.

Mas eu estou viva! Sendo assim, você vai sobreviver e vai superar! Antes de você conseguir seguir em frente você vai errar, e vai errar feio. Agora você é forte e já administra seus sentimentos melhor, vai saber iludir, mentir, desvalorizar as pessoas e até mesmo machucá-las. Não me orgulho desse tempo em que você se tornou fria e ignorava o sentimento das pessoas. Vai demorar para você cair na real e ver que ser sincera com elas e com você mesma é a melhor solução.

As recaídas vão chegar, então aceite, vai passar 2 anos depois do término do seu primeiro namoro e você ainda vai sentir falta dela e vai chorar. Mas você vai continuar sua vida.

Quando você completar 17 anos, uma nova fase vai começar, uma fase de grandes conquistas e de coisas boas. Você vai entrar na faculdade de jornalismo (está surpresa? Eu também fiquei) e conhecer pessoas incríveis. Vai viajar, ganhar prêmios e compreender que o futebol não era o seu futuro, afinal, agora você se descobriu na comunicação, e, olha, você é boa nisso.

No seu último ano de faculdade o destino vai te surpreender e vai trazer de volta (sei lá porque, pois até hoje não entendo) aquela que você amou aos 16. Vocês vão namorar, usar alianças, ter contato com família, vão dormir juntas, acordar juntas e se amar. Você vai ser feliz, mas não se anime muito, vai acabar.

Agora é o momento que você deve estar pensando: “Quando algo de bom acontece na minha vida, algo faz dar errado e BOOM, acaba”. Mas lembra que você evoluiu? Então, Mile, dessa vez, você vai saber lidar melhor, mas o sofrimento vai ser o mesmo, a vontade de não comer e de sumir do planeta terra também vão te consumir.

Você vai chegar ao momento mais triste da sua vida: a faculdade vai acabar e agora você é formada, seu estágio vai acabar, e, novamente, a idealização que você tinha sobre o amor também vai ter seu fim. Você não vai ter nada e vai se sentir um nada também, o vazio vai preencher seu coração e sua cabeça.

Você leu tudo isso e deve estar assustada com tanta coisa que ainda vai acontecer, mas é agora, com 22 anos, que você vai entender que foi preciso passar por tudo para ser quem você é.

Lembro que algumas vezes você sentiu falta de um amigo, ou a falta da atitude deles, então fique tranquila, eu te asseguro, VOCÊ TEM OS MELHORES AMIGOS DO MUNDO. Você vai viajar com eles, vai sorrir com eles e eu te prometo, são eles quem vão te fazer feliz.

Não se preocupe com o amor, ele te ensinou a voar e você aprendeu a caminhar com os pés no chão, e quem sabe o destino não te surpreende novamente, não é?

É fundamental você nunca parar de escrever, escreva sobre tudo, tenha um diário, escreva sobre suas músicas, sobre seus filmes, crie poemas, letras, romances, mas nunca pare, isso fará toda a diferença. O conhecimento que você vai ter é o que vai te diferenciar de todas as outras pessoas do universo.

Ah, não posso me esquecer, viaje sempre que puder. Sabe esse seu sonho de conhecer o mundo? Vai começar a ter vida, então se prepare porque você tem muito o que descobrir ainda.

Seja mais confiante, a confiança que você deposita em você vai te abrir portas importantes.

Pode ser meio triste te dizer isso mas não crie muitas expectativas em cima das pessoas, elas vão dizer coisas que alegram seu coração mas 80% não vai acontecer. Suba, e suba alto, mas diante das suas próprias expectativas e realizações, é você por você.

E, Mile, sempre se lembre: VOCÊ VAI TER OS MELHORES AMIGOS DO MUNDO!

Acabo aqui essa carta consciente de que a vida vai te preparar durante todos esses anos para que hoje, completando 22 anos, você estivesse preparada para ser feliz.

Jamile Ferraz

Jamile Ferraz Jornalista, mas gosta mesmo é de romance barato. Virginiana com vida profissional, mas nunca conseguiu tomar um rumo na vida pessoal. Acredita em destino, mas nem tanto. Apaixonada por livros, cinema e a música é como combustível. Um dia vocês vão ouvir falar de mim.
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Carta para você que está no meu lugar

Olá, caro(a) responsável pela felicidade dessa menina que deve acordar ao seu lado nos finais de semana, essa carta é para você. Eu não sei se você é um garoto ou uma garota e isso não me importa, já que as pessoas são capazes de se apaixonar por outras pessoas e não por gêneros.

Bom, você certamente precisará saber de algumas coisas que eu faço questão de te escrever.

Antes de firmar aquele famoso “acordo” de relacionamento sério no facebook tenha suas próprias certezas, essa menina não merece a ilusão dos amores que ela encontra. Ela merece a tua verdade, que, de fora, espero que seja sincera, como a minha um dia foi.

Se o relacionamento for intenso e verdadeiro dê, de preferência de surpresa, uma aliança, mas não as redondas que são clichê dos casais, nem com pedrinhas, pelo amor de Deus – ela não gosta de pedrinhas na aliança. Dê uma simples, mas que a faça lembrar que toda aquela simplicidade carregada no dedo da mão direita é o seu mundo dado a ela.

Ela vai ser a pessoa que mais te conhece no mundo, vai pesquisar coisas da sua banda favorita, da sua marca favorita, do seu filme favorito, do seu curso da faculdade e com todas essas informações ela vai acertar nos presentes. Portanto, não fique por baixo. Seja criativo nas datas comemorativas. Não precisa ter dinheiro, ela vai reparar na boa intenção do teu ato. Então, por favor, agrade essa menina com singelas atitudes de afeto e carinho diário. Se você não sabe, ela é canceriana, e bom…. Cancerianos normalmente são mais emotivos do que o normal e ela vai sentir falta da atenção diária que é dada a ela.

Deixe ela mostrar as reações químicas e os relatórios de cada aula da faculdade dela para você, mesmo que você não entenda nada. Veja como a letra dela é delicada e como ela se dá bem nessas coisas que provavelmente vão te assustar.

Se ela mandar foto de algum objeto, ou organismo, ou comida no microscópio, diga que a foto é interessante e que você quer saber mais sobre. Se vier uma foto com letras e números numa mesma folha, fique impressionado – não é qualquer um que entende de cálculo.  Observe ao menos uma vez o quão apaixonada pela profissão ela está e diga isso a ela.

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Quando vocês forem dormir juntos seja carinhoso, mas não o tempo todo. Saiba os momentos que você vai poder ser ousado e sempre busque surpreendê-la. Depois de todo aquele amor bem feito, deixe ela observar seu corpo até que ela se sinta na liberdade de encostar a cabeça no seu ombro e entrelaçar a perna esquerda dela com as suas.

É importante lembrar do senso de humor. Faça piadas internas, externas e comentários engraçados. Às vezes vai ser uma bosta e ela vai falar isso para você, mas em seguida ela vai rir, e você terá alcançado seu objetivo.

Quando ela estiver doente, a carência dessa menina se multiplicará e você não ouse em recusar estar perto dela e nem de ir buscar um remédio que está a metros de distância de você.

Se ela ficar brava com alguma coisa que você fez seja paciente e converse, o diálogo é a melhor solução, e de preferência olhe nos olhos dela para que haja uma compreensão do teu lado e do lado dela, que geralmente será o lado certo.

Dificilmente ela vai achar o corpo dela bonito, vai encontrar algo errado nos pés, nas mãos, no cabelo… Então faça com que ela se sinta linda até com a camiseta rasgada do Batman, diga como ela é perfeita quando acorda mesmo se a maquiagem dos olhos estiver chegando perto da boca. Se possível, cite o máximo de qualidades que você encontrar e crie uma lista para ela se lembrar do quanto é linda.

Caro responsável, você não vai encontrar alguém que chegue aos pés do que essa menina pode fazer por você, e quando se sentir realizado a culpa vai ser totalmente dela, sendo assim, seja a soma que eventualmente aumentará as perspectivas que essa menina tem do futuro, cresça com ela, faça planos e almeje o melhor. O amadurecimento das pessoas sempre atraiu o coração dela.

Por fim, declaro aqui minha satisfação em saber que esses métodos serão cumpridos e que dessa vez a felicidade plena baterá em sua porta.

Jamile Ferraz

Jamile Ferraz Jornalista, mas gosta mesmo é de romance barato. Virginiana com vida profissional, mas nunca conseguiu tomar um rumo na vida pessoal. Acredita em destino, mas nem tanto. Apaixonada por livros, cinema e a música é como combustível. Um dia vocês vão ouvir falar de mim.

Um eu sem você #14 – 17 de Outubro

Ao acordar, envio um e-mail para a minha mãe. Sei que se depender dela e esperá-la me procurar, isso demoraria dias. Ela lê e sai chorando, mas não me diz nada.

Hoje está tudo tão difícil e caótico, que tudo o que eu queria era você pra me acalmar e amar.

Vejo suas fotos e meu estômago dói. A saudade já não cabe mais no peito e está se espalhando por todos meus outros órgãos.

Volto às redes sociais e, com elas, volto também a seguir seus passos. Quando estamos com o coração todo machucado temos uma mania irremediável de procurar por mais socos e pontapés que nos façam sentir algo a mais, né? E em um dos seus passos virtuais, você curte algo sobre a “pessoa certa”, que irá te ver mesmo sem maquiagem. Eu te vi, mas não é suficiente. É?

Quando conto sobre a viagem que farei com minhas amigas para uma das mulheres da agência, ela diz: “que romântico”. Penso em voz alta e digo: antes fosse.

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Arrumo a mala e tenho a eterna sensação de estar faltando algo, de estar me esquecendo de algo. Confiro todos os itens mentalmente por mais de duas vezes até que percebo que o que está faltando não caberia na mala, mesmo você sendo tão pequena.

Minha mãe age como se a noite anterior não tivesse sequer existido e sai para uma festa. Ao entrar tomar banho, a água acaba quando estou com shampoo no cabelo. Quem me socorre é um amigo que me busca e me leva até sua casa para que eu possa me banhar.

Mais uma vez, agradeço aos céus pelos amigos que tenho.

Saio às 23h30 para viajar. Às 4h00 estamos em Bertioga. Às 4h30, estamos fazendo trilha. Às 5h30 o dia está nascendo e chegamos à Praia. Às 7h terminamos de arrumar tudo e dormimos até às 8h.

O fim de semana começa.

Carla Oliveira

Carla Oliveira Jornalista por formação, apaixonada pelos encantamentos diários por destino. Há 23 anos tenta escapar dos sentimentos, mas sem eles fica sem sentido. O cheiro que mais gosta é aquele teu que gruda na pele dela. Ah: canceriana, intensa, extremista e chata.

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente.

Martha Medeiros tinha razão quando finalizou “A Despedida do Amor” com essa frase. Na verdade, essa crônica vem me assombrando desde julho, quando comecei a sentir a segunda dor.  Você deve estar se perguntando quais são essas duas dores que sentimos quando o amor se despede da gente.

A primeira é a dor física, a saudade dos abraços, dos beijos, a dor que aperta o coração e ele mesmo assim continua batendo. E se você acha que a primeira é massacrante, experimente conhecer a segunda.

No segundo estágio da dor você vai entender que dói mais deixar que o amor saia de você do que a própria saudade do outro.

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Não é fácil esvaziar nosso coração, se livrar dos sentimentos, do apego ao que foi bonito e mágico. A gente se acostuma a esquecer do que não fez bem, mas se livrar do que te fez feliz dói também. E dói em dobro.

Mesmo que os tempos sejam outros e que o amor que você vê hoje não seja o qual se adeque a sua vida, o amor que um dia sentimos ainda faz doer, abandonar esse papel de “seremos felizes” parte em bilhões de pedaços o castelo de esperança que a gente cria para morarmos eternamente lá.

Eu me encontro nessa fase, meio perdida porque querer deixar esse amor ir é também abandonar uma parte de mim que eu realmente gostava. É sair daquele castelo sem direção, sem nada, mas é também nessa fase que vou me reencontrar, deixar as fantasias dos meus desejos para dar de cara com a realidade, que não pertence mais a sua.

Portanto, meus caros, despedir-se  de um amor é despedir-se de si mesmo.

Jamile Ferraz

Jamile Ferraz Jornalista, mas gosta mesmo é de romance barato. Virginiana com vida profissional, mas nunca conseguiu tomar um rumo na vida pessoal. Acredita em destino, mas nem tanto. Apaixonada por livros, cinema e a música é como combustível. Um dia vocês vão ouvir falar de mim.

Um eu em carta – Leonardo Lino

Para escrever uma carta ao meu passado, eu precisei voltar até lá. Enxergar novamente tudo aquilo que um dia eu vivi, que um dia me machucou, que um dia me alegrou… Revisitar lugares e rever pessoas que eu não tinha a intenção de reencontrar.

Mesmo que seja só por pensamento, a tarefa foi difícil. Mas lá vou eu. E seja o que Deus quiser.

Léo, 10 anos depois, aqui está você. Sentado em frente a um computador que você sempre quis (acredite, você tem um Mac, haha), um celular bacana, um carro, os melhores amigos do mundo e muitos problemas para enfrentar. A vida não ficou mais fácil e nem mais bacana. A vida ficou diferente. Diferente daquilo que você esperava, mas acredito que um pouco melhor. Nós nos superamos, Léo. Mas calma, ainda temos uma longa estrada pela frente.

Sei do quão difícil está sendo para você. Aos 14, um adolescente pobre, acima do peso (bem acima), e gay, não é uma das pessoas mais populares do colégio católico ultra-fancy que você estuda. Seus amigos de verdade, a essa altura, se resumem a 0, e você vai descobrir que pode ficar pior. Espere até os dezesseis.

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Mas eu estou aqui para conversar com você de maneira aberta e sem ressentimentos, visto que não poderemos mudar o que já passou. Nosso trabalho, agora, consiste em mudar o futuro do ponto de onde eu estou.

Você está passando por uma fase depressiva. Falta coragem, falta entusiasmo, sobra vergonha da sua condição financeira quando comparada à das pessoas ao seu redor. Neste ponto da vida, você tem vergonha até de entrar no carro simples da sua família.

Léo 14, desculpa te expor desse jeito. Não quero parecer sensacionalista ou dramático, mas quero me lembrar das coisas que já enfrentamos para que eu nunca me esqueça da força que eu tenho. Você sabe que não está sendo fácil estudar o dia todo comendo um salgado na hora do almoço, apenas, e depois andando 6 km para voltar para casa pois não tem o dinheiro do ônibus. Para que te conforte, hoje você corre isso por hobby e come bem, bem melhor. Gratidão universo.

A sensação de estar numa escola como a que você estuda não é das melhores, pelo menos não nesse seu momento. Ainda é cedo, mas seus talentos começam a aparecer agora, e você sempre apresenta os trabalhos, e até se diverte um pouco com seus amigos. Talvez neste ponto você já esteja mais zen em relação a tudo, em relação ao bullying (a gente nem sabia da existência desse termo), você está ficando mais forte.

O seu inconformismo diante da vida não vai acabar. Nós somos eternos inconformados. Você se sente revoltado com o que vê, você é agitador, e não acredita que as coisas possam ser do jeito que é. Esse espírito quero manter sempre vivo dentro de mim, graças a você.

A transição da oitava série para o colegial não é das melhores. Ah, você nunca vai ser bom o suficiente para seus colegas do time de vôlei – desista deles porque eles já não acreditam em você. Seu primeiro “emprego” na loja da tia tem muito a te ensinar. Muito, muito mesmo. E você não vai parar de trabalhar, então se acostume com isso.

Hoje você é grato por ter estado onde esteve. Vai perceber que tudo o que você tem deve-se à melhor educação que sua vida, seu colégio e seus pais te proporcionaram. Não preciso te dizer para se afastar das falsianes, pois a vida vai se encarregar disso. Você estará sozinho, mas não estará só. Você me ajudou a descobrir que somos sempre a nossa melhor companhia, e que, quando queremos, podemos chegar onde quisermos.

Obrigado, Léo aos 14. Você me fez lembrar que nós somos bem maiores que os nossos problemas, e que já passamos por mais coisas do que achamos que passaríamos. Agora, reabastecido da nossa coragem, eu volto para o presente. Te deixo aí, intacto, perfeito. Como tem que ser. Daqui em diante, ainda há muito para ser vivido.

Um eu sem você #13 – 16 de Outubro

Os dias estão passando, mas eu não sinto a sua falta passar. A cada dia que eu abro os olhos está mais difícil. Invento desculpas e doenças para chegar mais tarde ou faltar ao trabalho. Procuro remédio e ânimos para continuar, mas o meu remédio estava na dose diária de você.

Mando uma mensagem para avisá-la que precisará retirar a almofada no Correio. Você fica online algumas vezes após isso e nem sequer me responde. Eu me desespero, perco a fome e fico pensando incansavelmente na hipótese de você nem se dar ao trabalho de me responder. Será que já chegou a esse ponto?

Espero três horas passarem após ter enviado a mensagem e mando outra mensagem. Esta você responde rapidamente e, da mesma forma, fria. Distante. Seca. Monossilábica.

Essa sua frieza só me faz querer ainda mais conversar com você e tentar ter algo nosso de volta. Insisto e declaro sentir que parece que nunca nem existi na sua vida. Ao invés de me responder com carinho e proteção – que sempre esteve presente em tudo nosso –, simplesmente fica brava por eu ‘questionar’ o seu modo de lidar e diz que não tem como ser diferente, que não há nada a ser feito.

Minha vontade é falar que isso não é verdade. Tem muito o que ser feito! Você poderia sair do guarda-roupas e me abraçar. Você poderia, inclusive, me puxar para dentro desse esconderijo com você. Eu não me importaria de viver parcialmente escondida se fosse em sua companhia.  Mas eu me calo e evito maiores dores. Me despeço antes que eu me despedace ainda mais pra e por você.

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Na cozinha, estavam conversando sobre fantasias sexuais para mulheres. Eu, quieta e comendo, apenas me lembro de você com aquele corpete preto, dançando pra mim ao som de Arctic Monkeys. Você dizia que eu havia virado seu mundo do avesso, mas você virou muito mais o meu. Afinal, eu ainda estou aqui.

Alguns me falam “você não tá legal ainda?”. Não, não estou. Eu perdi o que nem cheguei a ter. Por mais uma vez, eu estou ouvindo a mesma faixa do mesmo disco.

Hoje, mais uma vez, você me convenceu de que tudo foi mentira, ilusão e histórias que criei na minha cabeça. Ou onde é que tudo o que você sentia foi parar? Onde está a parte em que você dizia me ter como o maior amor, sua preciosidade e que a vida nos colocasse nos mesmos caminhos novamente?

Tenho uma entrevista marcada às 20h com um cara de uma agência em São Paulo. A entrevista é por Skype e flui tranquilamente. Penso nas possibilidades de mudar de vida e ir para São Paulo. O caos da metrópole talvez pudesse me ser uma boa companhia e me distrair do caos que carrego em mim mesma.

Tento conversar com minha mãe pra saber a opinião dela e em um segundo de conversa, tudo se transforma numa enorme briga. Uma a qual não tínhamos há anos. Após horas discutindo e de desentendimento, saio de casa para respirar e poder me acalmar.

Um amigo-irmão me busca e me salva de mais esse peso. Jantamos, conversamos e ele consegue, de uma maneira excepcional, me trazer paz.

Nesse segundo, agradeço pelo amigo que tenho e reconheço de que, de fato, “eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos.”

Carla Oliveira

Carla Oliveira Jornalista por formação, apaixonada pelos encantamentos diários por destino. Há 23 anos tenta escapar dos sentimentos, mas sem eles fica sem sentido. O cheiro que mais gosta é aquele teu que gruda na pele dela. Ah: canceriana, intensa, extremista e chata.

Eu regredi, mas eu juro: foi só hoje

Hoje eu regredi porque imaginei como seria a festa do nosso casamento. É louco, eu sei, mas foi lindo.

Imaginei sua mãe subindo no palco e desejando nossa felicidade, imaginei nossa família dançando Village People juntas, nossos amigos chorando porque estavam presentes no momento que você me concedia uma dança. Eu vi você dançando sem os sapatos e eu de chinelos porque aquela noite ia ser infinita.

Eu regredi porque imaginei nossos cupidos. Sim, aqueles amigos que acompanharam nossa trajetória discursando algo sobre como nosso amor superou barreiras e era nítido, assim como a transparência da água, o olhar de felicidade da minha família, que antes não entendia que o amor abrigava o coração de uma menina tão pequena.

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Enxerguei nossas fotos de roupa social e em uma delas você estava se aconchegando no meu pescoço querendo transmitir para o mundo inteiro o quanto esse lugar era seu. Você não é muito de sorrir, mas naquela noite, querida, o sorriso não saiu da sua boca.

Imaginei quantos “gritinhos” de “amiga, estou me casando!!” você ia dar e de quantos olhares apaixonados eu iria te lançar naquela noite. Do quanto meus olhos iriam mergulhar nos seus no caminho que eles iriam fazer para expressar que aquela noite estava sendo o dia mais feliz da minha vida.

Eu regredi, mas eu juro: foi só hoje.

Tenho passado bem e sobrevivendo às inúmeras dúvidas que deixaram um ciclo de amor aberto. Estou tranquilizando aos poucos esse coração que merece paz e calmaria e acredito que esteja caminhando devagar porque o sabor desse caminho me prepara para a chegada de algo novo, que eu sei que virá e transformará as dúvidas do passado em certezas para o presente.

Jamile Ferraz

Jamile Ferraz Jornalista, mas gosta mesmo é de romance barato. Virginiana com vida profissional, mas nunca conseguiu tomar um rumo na vida pessoal. Acredita em destino, mas nem tanto. Apaixonada por livros, cinema e a música é como combustível. Um dia vocês vão ouvir falar de mim.

Eu esqueci o amor da minha vida

Caro leitor, talvez este seja o primeiro texto em que começo me desculpando. Desculpo-me, antecipadamente, pois talvez este texto seja repleto de melancolia. Talvez ele seja longo demais – provavelmente o maior que já escrevi – ou, talvez, seu conteúdo em nada lhe interesse.

Usarei estas palavras como forma de desabafo. Como forma de contar ao mundo e a mim mesmo como esqueci aquele que sonhei ser o amor da minha vida. E não falo de romances baratos, não. Falo de conexão de alma, de semelhança, de empatia. Falo daquilo que achei que fosse para sempre – depois que existisse, e que hoje não é mais.

Poderia, claro, estar em alguma mesa de boteco falando sobre isso com minhas amigas. Elas são as pessoas mais doces, amáveis e companheiras que conheço. Mas o incômodo que isso me causaria seria gigantesco. Primeiro porque elas provavelmente já se cansaram de me ouvir a respeito disso. E mesmo que não tenham, eu me cansei de falar. Cansei porque, há anos, pareço um cão correndo atrás do próprio rabo.

Ou parecia.

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Eu nunca fui daqueles que acreditou em amor à primeira vista. Quando vi esse fulano (e é assim que o trataremos daqui em diante), me interessei, primeiramente, por seu corpo que causava inveja em muito marmanjo cria de academia. A princípio, jamais imaginei que algo pudesse existir – ainda mais naquela época: minha autoestima era menor que a torcida do XV de Piracicaba.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas. E, como sempre, me surpreendeu. Aos poucos, aquele menino lindo – e arrogante – que outrora eu conheci, desmanchava-se em pedaços na minha frente. Era como se a pele de leão caísse e, em seu lugar, surgisse a mais bela lã. A fera da qual eu tinha medo, tornara-se um carneiro. E nos aproximamos.

Logo de cara a intimidade foi grande. Parecíamos amigos de longa data. Primeiro as caronas que eu dava, depois o apoio nos momentos difíceis, as risadas e cumplicidades… E, como se eu caísse dentro de um novelo, eu me enrolei.

Aos poucos enxergava aquela amizade demasiadamente crua. Eu queria mais.

Percebi que, de tudo o que me faltava na vida, ali estava o que eu mais precisava. Era um menino problemático, eu confesso, mas era isso que eu queria. Cuidar é algo intrínseco a mim. Não sei não ser mãe. A que conste para as notas do leitor, bebo Malzebier – tem algo mais maternal que isso?

E bem na hora que eu desprendia todo o meu cuidado, mais coisas aconteciam para que eu precisasse desprender ainda mais. Eu me sentia feliz na presença dele e ele havia se tornado meu ópio.

E toda droga, caro leitor – como bem adverte o Ministério da Saúde – causa efeitos colaterais. Eu usava da presença dele. Sentia cada minuto passando, como se os segundos fossem a batida tensa, insegura e esperançosa do meu coração. É fato que eu sempre fui um apaixonado pelos amores platônicos, mas agora era diferente. Agora era ele. Tinha que ser.

Eu fui me tornando dependente. Imagine que um viciado rouba, mata e se prostitui tudo pelo prazer de satisfazer o vício. À minha maneira, fazia o mesmo. Eu o via sofrendo nos braços de uma menina que jamais lhe dera o valor que merecia. Todas as noites, quando me deitava, a minha abstinência era o sofrimento pelo sofrimento dele. Se pudesse, teria arrancado com unhas e dentes tudo o que ele sentia de ruim, teria trazido pra mim, teria feito meu. Tudo para fazê-lo feliz.

Acompanhei noites e noites a fio, e o meu vício aumentava à medida em que eu acreditava que era ele. Tinha que ser. Tudo o que eu sempre procurei em minha vida estava ali. Eu não sabia explicar, mas era ele.

Meu vício foi se solidificando. Agora, vê-lo todos os dias era condição sine qua non para meus sorrisos. Terrível era o dia que eu passava sem poder olhá-lo nos olhos. Sentia que o Sol não havia nascido, o mundo não girava, o tempo não passava. Eu precisava daquilo. Eu precisava dele.

Imagine que, mesmo para sentir a dor dele, eu queria estar ali. Eu queria estar perto, eu queria pegar nas mãos dele e dizer “venha comigo, eu posso te fazer feliz.” E como o firmamento que existe, eu afirmo categoricamente: eu poderia mesmo.

Mas a vida, como bem sei, é cheia de suas peculiaridades. Não sei como não demonstrava abertamente tudo aquilo que sentia. Apesar do cuidado, do ombro, do ouvir chorar, do consolar, do alegrar, do acompanhar, do viver do lado, eu era simplesmente um amigo. Me imagino, hoje, como uma represa. Uma barragem gigantesca que acumulou, ao longo de anos, todos esses sentimentos tristes, alegres, nostálgicos, esperançosos… Condensei tudo dentro de mim. Preenchi meu vazio com as ilusões que aquele amor me trazia.

Pode parecer besteira ou encanação minha, mas fulano não me abraçava direito. Nunca abraçou, na verdade. Talvez eu demonstrasse só um pouco mais do que gostaria.

E fomos crescendo. Tanto eu quanto ele, em ritmos diferentes – mas sempre juntos – aprendíamos todo-santo-dia uma nova lição que levaríamos para contar aos nossos netos. Nossa vida era uma aventura pitorescamente monótona, dotada das mais simples alegrias e cumplicidades que eu jamais imaginei merecer. Aqueles momentos ao lado dele me faziam esquecer dos ciúmes que eu sentia da namorada nova. Da peguete nova. Daquela que ele estava comendo. Me fazia esquecer que, ao fim do dia, eu ainda estava sozinho. Que minha alma acreditava na completude daquele amor mais do que a realidade me dava. A minha represa, agora, era preenchida, também, por solidão.

Desenvolvi por fulano, em todo esse tempo, um amor tão grande que jamais pensei ser capaz de carregar. Longe de ser um romance shakespeariano, eu entraria na frente de uma arma por ele. Sem nem duvidar. Entre a minha vida e a dele, escolheria mil vezes a dele. Para que ele pudesse ser feliz, plenamente feliz, mesmo que isso não me incluísse.

O gosto da droga agora era amargo. A satisfação de estar perto tinha se misturado com a amargura de não estar tão perto como eu gostaria. Havia um abismo entre nós – que só eu enxergava. Vale notar, neste ponto, que fulano sempre (sempre mesmo!) deixou claro o quanto minha amizade importava, o quanto eu importava, o quanto era bom estar comigo como amigo.

Aos poucos eu percebi que eu jamais chegaria a possuir fulano. A minha vontade, verdade seja dita, era rasgar inescrupulosamente toda a roupa numa noite quente e aos beijos mais demorados fazer amor que daria inveja aos maiores amantes. De viver uma entrega tão grande e pura que nossa luz iluminaria o universo e nossas almas juntas viajariam por milênios, brincando, correndo, amando, dançando… Nós viveríamos a completude da entrega. Eu sentia. Eu queria.

Mas, diferente do sonho, a vida me levava por outro caminho. Eu me tornei um dependente do pior tipo: aquele que não quer aceitar a dependência. Homem atrás de homem, eu buscava freneticamente encontrar fulano, provocar fulano, mostrar que eu estava ali e era desejado. Por que ELE não me queria? Onde eu havia errado?

Fiz coisas das quais não me orgulho. Estive com pessoas – muitas pessoas – com quem não gostaria de estar em sã consciência. Mas eu estava sob o efeito daquela droga inebriante e minha sede por aquela boca se tornava maior, maior e maior.

Eu carregava em meu peito uma mistura heterogênea de amor e ódio. Ódio porque eu via fulano sofrendo, fazendo escolhas erradas, buscando a felicidade onde eu sabia que ela não encontraria. E como eu sabia! Não errava uma. Meu amor protetor também era intuitivo.

Só que agora eu estava cheio. Minha represa suja, poluída, cheia daquele lodo de amor rancoroso e não realizado transbordava incontrolavelmente dentro de mim. Agora eu era dor. Dor por não poder amar, dor por ver meu amor sofrendo. Dor e dor e mais dor. Era nisso que minha vida se resumia.

Eu decidi me afastar. Mas antes, é claro, deixei fulano ciente – e bem ciente! – de tudo aquilo que eu sentia. Tudo que 4 anos sempre escondi. Agora era hora da verdade. Confesso que foi um dos momentos mais difíceis em minha vida. Olhar nos olhos dele, com os meus já marejados, e dizer que eu não estaria mais ali, que eu não o procuraria mais, que eu PRECISAVA estar longe daquela droga para poder me limpar, foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida. Eu estava disposto a esquecer o amor da minha vida. E – uau! – isso doeu mais que tudo.

Nos primeiros dias a dor da abstinência era excruciante. Eu podia ouvir a respiração dele ao meu lado. Podia sentir o calor da pele que eu sempre senti, mesmo tendo tocado poucas vezes. Meu coração ainda estava nele. E ele ainda estava em mim.

Como bom filho resignado que sou, deixei o tempo passar e seguir seu fluxo. Nesse período sabático – acredite, fulano mesmo que o batizou assim, alegando que eu voltaria e, para ele, a amizade seria a mesma – eu me arrisquei em algumas tentativas bem fracassadas de novos relacionamentos. Que pela primeira vez não pareciam tão fracassadas assim.

Até para a minha família apresentei um cara, coisa que nunca tinha feito. E eu realmente acreditava que aquilo pudesse dar certo. Que a maneira mais fácil de esquecer uma pessoa seria colocando outra em seu lugar. Não é.

Meu período sabático durou aproximadamente 4 meses. Num belo dia, resolvi ligar para fulano e passar na casa dele. Era um sábado à noite. Prontamente fulano me disse que estava jogando vídeo-game e que eu deveria passar sim. Ao chegar lá, não subimos. Eu estranhei a recepção na garagem – quase me senti um carro – até que a verdade veio: fulano estava com uma garota upstairs e eu não poderia subir pois a mesma não queria receber os amigos dele.

Imagine uma faca. Pegue essa faca e cometa haraquiri. Era essa a dor que eu sentia. Meu amor havia se transformado num gigantesco ódio. Ódio por aquilo, ódio por ela, ódio por ele, ódio de mim por ter tentado me reaproximar. Intrepidamente mórbido. Era assim que eu me sentia.

Amigo leitor, se você chegou até aqui, meus parabéns. Eu realmente preciso do seu apoio nessa parte.

Depois desse episódio, perdoá-lo foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida – de novo! Mas eu perdoei. Ele não tinha culpa, pois eu havia criado demasiada expectativa. Esperava que fulano me recebesse com tapete vermelho e alegorias, mas pra ele eu sempre estive ali. Eu tinha saído para ir ao supermercado e voltado. Era isso que ele imaginava. O que, para mim, tinha sido a eternidade, para fulano foi só “um tempo”.

E aos poucos fomos nos reaproximando. Sabe aquele cachorro traumatizado de tanto apanhar, que tem medo de chegar perto de você, mas que, ainda assim, quer seu carinho? Eu estava assim. Pisando em ovos.

Eu fui me envolvendo de novo – mais fortalecido, dessa vez. E para minha surpresa, o menino que eu havia deixado há 4 meses tornara-se um homem. Cheio de atitudes, responsabilidades e desejos. Meu menino havia crescido. Tudo tão rápido.

Agora já falamos de momentos atuais. E de mais surpresas. De um modo que eu nunca esperava, fulano me surpreendeu e me estendeu a mão de uma maneira que eu não imaginava que ele seria capaz. Eu precisava de ajuda e ele estava ali por mim. De um modo quase cármico, tudo o que outrora eu fizera por ele, ele estava fazendo por mim. Sem perceber, eu já estava viciado novamente.

Já sofria novamente, já esperava novamente, já queria novamente. Mas caramba! Tinha que ser ele. As pessoas falavam que era ele. “Léo, eu tenho certeza que vocês ainda vão ficar juntos”, eu ouvia. Me alegrava na hora, mas logo em seguida a melancolia me dominava.

De novo eu sentia o mesmo ciúme da nova menina idiota que não dava a ele o devido valor. Ao ouvi-lo contar de suas desventuras amorosas, meu silêncio enciumado ao telefone disfarçava-se de má qualidade no sinal da operadora. Eu era um cão correndo atrás do próprio rabo. Tinha que ser ele.

Mas, de repente, de um modo tão engraçado e surpreendente como a vida é, em uma ligação, em uma nova história de amor de fulano, eu enxerguei.

Foi como se a represa tivesse rompido, e todo aquele lodo de sentimentos agora vertiginosamente corresse para fora de mim. A venda havia caído, a ilusão acabado e a esperança morrido.

Não era ele. Assim. Simples. Que foi embora como veio. Não era ele. E, de repente, aquele preenchimento falso que me habitara por tanto tempo agora era só vazio. Eu estou vazio. Como se dentro do meu peito coubesse o infinito. Como se esse buraco fosse sem fim, sem chão.

Não era ele, e eu estava sozinho. Eu estou sozinho. O amor da minha vida não era o amor da minha vida. Fulano virou uma lembrança – ou o que eu sentia por ele.

Agora estou aqui, imensamente incompleto, perdido, vago. Agora caminho só pelo meu deserto de sal.

E quem sabe um dia esse vazio que existe em mim possa ser preenchido da maneira mais pura e bela pelo verdadeiro amor da minha vida.

Leonardo Lino

Leonardo Lino 24 anos, publicitário, trabalha com Marketing Imobiliário e é um apaixonado por economia, política e filosofia. É um inimigo declarado do estado. Um monarquista pragmático. Tem como inspiração Ayn Rand e Ludwig von Mises. Gosta de falar abobrinhas, bobagens e jamais vai te levar a sério. Está aprendendo a escrever, desculpem os maus modos.

Um eu em carta #1

Oi, sou eu.

É, isso mesmo, você mesma que está escrevendo. Parece meio louco, mas não é não. Sei que não estamos em um longa-metragem de ficção científica e todos os conselhos que te darei aqui não irão mudar o roteiro do que já foi, mas espero que se sente e deguste esses dez anos que passaram e resumo por meio de epifanias.

Aos quatorze anos, as provas de matemática realmente parecem o seu maior problema da vida – sem contar os corações partidos que vem te acompanhando há algum tempo já –, né? Mas deixa eu te contar um segredo: as equações de terceiro grau ou a teoria de Pitágoras não são nada comparadas às teorias e práticas que só aprendemos durante a vida. Não há combinação química mais destruidora do que um toque de mãos que arrepia a tua nuca, não há conjugação verbal mais correta do que aquelas frases românticas – ou safadas – sussurradas ao pé do ouvido e, acredite, conseguimos destruir as leis da Física e sentir um corpo presente dentro da gente – no coração.

Quer saber mais? Essa época de escola será o tempo que mais sentirá saudades daqui 10 anos. Com o tempo, os amigos – e você também – crescem e faz um falta danada encontrá-los todas as manhãs. E, daqui 10 anos, eu quero ver você arrumar um tempo entre sua agenda com trabalho-obrigações-de-casa-e-projetos-pra-vida com a dos seus amigos com trabalho-academia-balada-e-projetos-pra-vida. Então aproveite essas manhãs, tardes e noites de estudos e desabafos. Elas irão fazer falta daqui um tempo – mas não precisa se preocupar, o destino logo vai te presentear com os melhores amigos que a vida poderia te dar, mesmo sem muito espaço nas agendas.

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Você, ao me ler, deve estar duvidando que é você mesmo, né? Eu também duvidaria. Mas tenho mais algumas coisas para te contar: o tempo vai passar e vai te deixar mais realista quanto a quase tudo. Então não se preocupe com aquele amor – o primeiro – e deixe pra lá essa história de que só existe um amor na nossa vida. É tudo história de conto de fadas.

A vida vai te mostrar que nesse nosso mundinho existem sete bilhões de pessoas e ao menos umas 10 podem ser o amor da sua vida. É só você se permitir – e eu te garanto, também, que alguns – e muitos – amores e paixões irão acabar – e acabar com você também, canceriana –, mas você vai levar para a vida toda a doçura que cada um deixou dentro de você e na sua história.

Eu não quero me prolongar muito nessa carta, eu sei que a sua cabeça adolescente tem matérias para estudar para provas e alguns dramas para serem resolvidos, mas sabe de uma coisa? Você vai ser tia de uma menininha loirinha linda! E ela vai ser, entre os sete bilhões de pessoas do mundo, um dos amores da sua vida. Espere só e verás. Aliás, hoje os laços familiares podem estar um pouco enferrujados e quebrados, mas Deus sabe o que faz e até você chegar onde eu estou agora, tudo ficará bem.

Na verdade, se eu tivesse somente um conselho para te dar, não seria um conselho, seria um aviso: continue fazendo tudo exatamente como fez. Sabe por quê? Porque tudo o que fez te trouxe até onde eu estou e, aqui, está tudo muito bem.

É, isso mesmo: tudo ficará bem.

Carla Oliveira

Carla Oliveira Jornalista por formação, apaixonada pelos encantamentos diários por destino. Há 23 anos tenta escapar dos sentimentos, mas sem eles fica sem sentido. O cheiro que mais gosta é aquele teu que gruda na pele dela. Ah: canceriana, intensa, extremista e chata.

Um eu sem você #12 – 15 de Outubro

Dormi cedo para evitar pensar e poluir mais ainda meu pensamento, mas, ao acordar, parece que um caminhão passou em cima de mim, dos meus sentimentos e certezas. Hoje, não acredito mais em nada. Nem no que passou e que você jurava ser verdadeiro, pra vida toda e único.

Os olhos e as olheiras entregam as noites mal dormidas … Eu só queria arrancar meu coração com a mão e parar de sentir. Cadê o Lacuna INC quando precisamos esquecer alguém? Por favor, apaguem minhas memórias antes que elas me sufoquem. Limpem meus sentimentos antes que eles me afoguem.

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Entro no Facebook por 5 minutos para fazer um post da Agência e mais um pouco só para jogar meus jogos no almoço. Aparentemente, você não fez nada lá hoje. Você conseguiu o que jamais ninguém conseguiu na minha vida. Você conseguiu me fazer sair de redes sociais e querer ficar longe de tudo seu na mesma proporção que eu queria ter perto há 1 mês atrás.

Almoço com uma amiga, conto tudo e todos os detalhes das histórias que eu contei pra você e pra poucas pessoas além de você.

Minha cabeça não me deixa te esquecer. Olhando para páginas e matérias na internet, me pego pensando e te vendo na minha memória. Seu toque, seu abraço, seus lábios. É tudo tão vivo que quase não acredito no que aconteceu e que hoje estamos assim.

No caminho do ponto de ônibus pra casa, começo a pensar as tantas coisas que você não teve tempo para conhecer sobre mim. Por exemplo, quando vejo formigas trabalhando na calçada, carregando folhas até 50% maiores que elas, eu desvio delas. Quando eu estou pra adoecer, sinto dor em uma parte específica das mãos. Você sabia? É, eu sei que não.

Meu corpo está exausto, mas eu deito e não consigo dormir com a mesma facilidade de antes. Você roubou minha paz e o meu sossego.

Carla Oliveira

Carla Oliveira Jornalista por formação, apaixonada pelos encantamentos diários por destino. Há 23 anos tenta escapar dos sentimentos, mas sem eles fica sem sentido. O cheiro que mais gosta é aquele teu que gruda na pele dela. Ah: canceriana, intensa, extremista e chata.