Um eu sem você #1 – 4 de Outubro

Sempre gostei de sábados. Pra mim, é o dia oficial da semana em que posso dormir tarde e acordar ainda mais tarde, com uma eterna sensação de dever cumprido.

Neste dia, ele deveria ter sido como qualquer outro sábado: eu deitaria tarde na sexta-feira, fosse por ter saído com meus amigos, ou por ter ficado até altas horas falando com você ou simplesmente vendo um filme. Mas não, tive que desligar o celular para dormir (coisa que fiz contáveis vezes em toda a minha vida). Ou melhor, tive que me desligar dele.

Se não fizesse assim, continuaria observando seu last seen no Whatsapp e sua foto de perfil enquanto escrevia e apagava frases desconexas que só faziam sentido dentro da minha cabeça e do meu coração.

Era véspera das eleições e, meu Deus, quem em sã consciência pensa tanto em amor quando o foco do fim de semana é a política brasileira? Ou ao contrário: quem consegue pensar em política quando o amor está latente?

Quando abro os olhos, já sabia que sua ausência estaria gritante, mas minha esperança cega me faz religar o aparelho só para confirmar que não, não tem nada teu. Com o tempo e as frustações constantes eu estampei na minha cara e pra vida toda uma realidade que, hoje, aceito em paz: Quem nasceu pra ser passagem jamais será ponto de chegada.

Mas por que é que eu fui deixar você ser tão gigante dentro de mim a ponto de me invadir plenamente, roubando até mesmo o espaço que eu dava pra minha insegurança e me fazendo somente sua? Por que eu fui acreditar, mais uma vez, que seria diferente? Nunca é.

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Correndo contrária à minha vontade de saber de você, desligo novamente o celular mas você logo comenta em alguma atualização minha no Facebook e suponho que me procuraria. Assim, religo o aparelho e lá estavam suas mensagens desesperadoras pedindo pra que eu te atendesse.

Do outro lado da linha, você estava aos prantos, de uma forma que, do lado de cá, a única coisa que eu queria era poder correr para o seu lado e ser o seu porto para você desaguar todo esse mar dos olhos.

Após algum tempo o seu choro diminui e você consegue me explicar o motivo desse teu mar estar agitado: achar que eu seria capaz de seguir em frente, sem você, tão rapidamente e, ainda, sua mãe.

Foram três horas de conversa e ainda hoje, sete meses depois, sinto como se não tivesse falado tudo. Ou ao menos eu não falei. Afinal, era para eu passar uma vida inteira te ouvindo e falando com você.

Sua decisão torna-se inalterável: desistir dos sonhos que mal começamos a construir, dos sentimentos, dos planos, do carinho e desse amor. Você alega ser o melhor pra nós, mas eu sei que, na verdade, é o melhor pra você, não pra mim.

Em meio às ilusões de que tudo um dia ficará bem e de que nos reencontraremos pela vida, indiretamente não me permito aceitar essa realidade. Como quem foge de si mesmo durante a fase da negação, meu consciente não reage e poucas lágrimas caem.

É sábado à noite, o que mais eu poderia fazer para não te procurar além de tomar um banho e sair? Encontro-me com uma amiga e, dentro de mim, parecia como se nada tivesse acontecido, mesmo a maior pauta do encontro ser você. Ela me consola, me ouve e divide as suas experiências em meio às garrafas de cerveja em cima da mesa.

Prolongo a noite encontrando outro amigo e indo até uma festa com outros tantos rostos conhecidos – quando, na verdade, era o seu que eu queria encontrar – e estendo meu sábado para o domingo, até às cinco da manhã.

Eu, o álcool, a madrugada e a ilusão de que tudo ficará bem – com a gente.

Continua...

Carla Oliveira

Carla Oliveira Jornalista por formação, apaixonada pelos encantamentos diários por destino. Há 23 anos tenta escapar dos sentimentos, mas sem eles fica sem sentido. O cheiro que mais gosta é aquele que gruda na sua pele. Ah: canceriana, intensa, extremista e chata.
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